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Retirada do embargo pode consolidar Qatar como intermediador no Oriente Médio




Qatar sai praticamente ileso de embargo econômico de mais de três anos imposto pela Arábia Saudita e aliados. Fortalecido, o emirado pode emergir como intermediador chave no Oriente Médio.


O ano de 2021 começou com uma decisão histórica: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein e Egito decidiram colocar fim ao embargo diplomático e econômico imposto contra o Qatar em 2017.


A decisão foi formalizada durante reunião extraordinária do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), grupo de países que reúne Arábia Saudita, Bahrein, EAU, Kuwait, Omã e Qatar.


Apesar de ser ter somente 1,9 milhão de habitantes, o Qatar se destaca internacionalmente pela sua produção de hidrocarbonetos e diplomacia heterodoxa.


"Apesar de ser um país relativamente pequeno, as relações internacionais do Qatar realmente assustam países como Arábia Saudita e EAU", disse o pesquisador do Instituto de Pesquisa sobre Oriente Médio e Ásia da Academia de Ciências da Rússia, Dmitry Grafov.

Monarquia absoluta comandada pela Casa de Thani, o Qatar possui a terceira maior reserva mundial de gás natural do mundo.

O cientista político, professor de relações internacionais e colunista do Monitor do Oriente Médio, Bruno Beaklini, ainda lembrou da influência do país no setor de transportes e realização de grandes eventos.


"Não é um país isolado, sobre o qual as pessoas ignoram a existência: além de receber grandes eventos e de ser a sede da próxima da Copa do Mundo [...] o Qatar é um gigante mediático", disse Beaklini.

Em 2017, no entanto, Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Bahrein e o Egito romperam relações diplomáticas com o Qatar, fechando suas fronteiras terrestres e espaço aéreo para o país.

A justificativa foi a de que o Qatar manteria laços demasiadamente estreitos com o Irã.


O emirado, de fato, mantém contatos diversificados com organizações e países rivais, o que nem sempre é visto com bons olhos pelos vizinhos.


Não é à toa que o Qatar é a sede das negociações de paz para o Afeganistão e fonte de financiamento de grupos que defendem a causa palestina. 


Além disso, o grupo de países liderado pela Arábia Saudita acusou o Qatar de usar a emissora Al-Jazeera como instrumento de propaganda internacional. 


"A política de comunicação do Qatar através da Al-Jazeera [...] consiste em uma forma de diplomacia pública, que é um fator estratégico na formação de opinião no mundo árabe", disse Beaklini.

De acordo com Beaklini, "a proposta de retirar o embargo veio a partir da decisão [...] monocrática de duas pessoas-chaves: o governante de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, e o governante de fato do EAU, Mohammed bin Zayed", disse.


"Por princípio, toda retirada de embargo e sabotagem com viés econômico é uma boa notícia para as relações internacionais", ponderou Beaklini.

Após três anos e meio de embargo, o Qatar não mudou a sua postura: manteve seus contatos com o Irã, a transmissão da Al-Jazeera em escala global e não sofreu danos econômicos significativos.


"Não houve uma mudança radical na economia do Qatar", disse Grafov. "Já no primeiro mês ficou claro que o embargo tinha sido um fiasco."


"O Qatar obteve apoio para transportar produtos de forma aérea a partir de países como Irã e Turquia, anulando os efeitos do bloqueio aéreo", explicou Grafov. "O embargo terrestre tampouco foi capaz de gerar uma crise de abastecimento."

Segundo ele, "as ferramentas usadas por Doha para contornar o embargo se mostraram eficientes e podem ser reaplicadas no futuro."

A decisão de retirar o embargo significaria "que esses países tentam sair de uma situação não muito confortável, que era a de manter um bloqueio ineficaz", acredita o pesquisador.


"Manter uma situação de conflito vazio com um país vizinho é realmente muito contraproducente", ponderou Grafov.


Irã

A reaproximação com o Qatar pode ser uma forma de atrair o país para a formação de uma aliança de países do golfo Pérsico para conter a influência iraniana.


"A decisão representa uma tentativa de forjar uma aliança contrária ao Irã, liderada pela Arábia Saudita, que de tabela promove a agenda dos EUA na região", acredita Beaklini.

O pesquisador lembra que, em seu discurso perante seus aliados no CCG, o monarca saudita teria culpado o Irã pela instabilidade na região.


"Existe uma necessidade urgente de unir nossos esforços para promover nossa região e confrontar os desafios que nos cercam, especialmente o representado pelos programas nucleares e de mísseis balísticos do Irã", disse bin Salman durante o encontro.

Para Grafov, "o Qatar entendeu que um dos principais argumentos de seus inimigos é sua cooperação ou bom relacionamento com Irã".


Por isso, o país teria interesse em contrabalancear a influência de Teerã em sua imagem externa, nutrindo relações com outros países, como Israel.


Aproximação com Israel

O levantamento do embargo contra o Qatar pode significar uma tentativa de incluir Doha no grupo de países árabes que normalizaram relações com Israel.


Para Beaklini, a medida tem o objetivo de "atrair o Qatar e, indiretamente, o Kuwait, para o processo de normalização das relações com Israel".

No ano passado, Bahrein e EAU estabeleceram relações diplomáticas com Tel Aviv, abandonando posição histórica de não reconhecimento do Estado judeu, em solidariedade à causa Palestina.

No entanto, Grafov lembra que "o Qatar já começa a aprimorar seu relacionamento com Israel como uma forma de aumentar sua influência nos círculos políticos dos EUA".


Para Beaklini, o eventual estabelecimento de relações diplomáticas entre Doha e Tel Aviv seria danoso para grupos na Palestina, uma vez que "o Qatar hoje é o país árabe mais rico que mantém apoia à causa palestina".


Por outro lado, Grafov acredita que a relação privilegiada que o Qatar tem com grupos palestinos como o Hamas pode, por incrível que pareça, interessar à Israel.


"O Qatar pode cooperar simultaneamente com Israel e com a Palestina, colocando-se como um intermediador entre o grupo Hamas e Tel Aviv", disse o pesquisador.

Atualmente, "o único canal que Israel tem com o Hamas é através do Egito", e "pode ser interessante estabelecer mais uma linha de contato através do Qatar".


A expectativa, portanto, é que o Qatar mantenha a sua prática de manter contatos diplomáticos diversos, servindo como um mediador regional relevante.

Apesar de poucos termos do tratado terem sido trazidos à público, não há indícios de que o Qatar tenha feito concessões relevantes aos países que impuseram o embargo.


"O Qatar se coloca no lugar de vencedor ao receber de forma afável o convite da Arábia Saudita para se reintegrar ao conselho regional", disse Grafov.


"A lição que o Qatar deixa é a que uma política externa correta é aquela que não se rende ou faz concessões mediante pressão", acredita o pesquisador.


"O Qatar provavelmente sai do embargo ainda mais independente", concluiu Grafov.

Em 5 de janeiro, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, anunciou a assinatura de acordo entre os países do golfo Pérsico para encerrar embargo econômico e diplomático imposto contra o Qatar em 2017.

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