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Após vídeos de Brasileiros que moram em Wuhan, Jair Bolsonaro volta atrás de sua decisão de que não traria nenhum Brasileiro da China, para o Brasil.


Na última 3ª feira (28.jan.2020), questionado por repórteres, o presidente descartou repatriar os brasileiros da China. “Não seria oportuno retirar de lá, com todo respeito. Pelo contrário. Não vamos colocar em risco nós aqui”, disse.
Na 6ª feira (31.jan), depois de uma reunião ministerial para tratar das medidas de prevenção ao vírus, o presidente foi categórico: “Se não estiver tudo redondinho no Brasil, não vamos buscar ninguém. Se depender do presidente, não vamos buscar ninguém”, disse. Por ‘redondinho’, o capitão se referia à origem dos recursos para fretar um avião para algumas dezenas de brasileiros da China e as medidas legais para isolar os expatriados na chegado ao Brasil.
No final da tarde de domingo (2), todos os poréns anteriores haviam sido esquecidos e a repatriação dos brasileiros se tornara prioridade de Estado.

O que mudou nesse período foi um vídeo divulgado no domingo de manhã no qual um grupo de brasileiros de Wuhan apela pela repatriação. Num jogral, 11 brasileiros leram uma carta formal ao presidente na qual desmontaram um a um os argumentos contrários: outros países já haviam retirado seus patriotas da província, a China não impedia essas retiradas, nenhum dos brasileiros apresentara sintomas dos vírus, todos concordavam em permanecer em quarenta ao retornar e, principalmente, esse era um direito de um expatriado sob qualquer governo.

Inteligente, o vídeo tinha como título ‘Brasil, casa de todos nós’–um apelo à solidariedade. As falas traziam medo e nervosismo. Ao final, a gravação mostrava duas crianças, manobra emocional que teve efeito direto. Milhares de brasileiros se compadeceram do drama e cobraram do presidente nas redes sociais que o País não os abandonasse. Bolsonaro recuou.

Mesmo depois de 28 anos como deputado federal e um como presidente, Bolsonaro ainda é um enigma em Brasília. Como fez carreira no baixíssimo clero e mistura suas amizades com relações de autoridade e submissão, o presidente é um estrangeiro no poder. Ele usou a distância com o establishment político a seu favor na campanha, mas uma vez eleito esse estranhamento tem causado ruídos e tropeços nas relações com o Congresso, STF e mídia. Brasília ainda sofre para entender como Bolsonaro funciona.

Nas gestões anteriores, o presidente receberia uma reivindicação (legítima ou não) através de seus ministros ou assessores próximos. Mas a lista daqueles que têm a atenção dos ouvidos do capitão é cada vez mais curta.

No dia a dia, inclui os ministros da Secretaria Geral, Jorge Oliveira, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e os assessores Luiz Felipe Martins e Fábio Wajngarten. O ministro Augusto Heleno é respeitado, mas consultado apenas pro forma. Ministros que teriam o que dizer ao presidente sobre relações com o Congresso e o Judiciário –como o deputado Onyx Lorenzoni e o ex-juiz Sergio Moro– estão na geladeira. Os demais são, no melhor dos casos, ouvidos em assuntos de suas pastas. Os únicos capazes de (às vezes) fazer o chefe mudar de ideia são os ministros Paulo Guedes e Fernando Azevedo e Silva.

Outra opção em tempos passados seria encaminhar a sugestão ao presidente via um congressista, mas ganha uma viagem só de ida para Budapeste quem encontrar um deputado ou senador que tenha acesso real ao presidente –sem contar, logicamente, os filhos Eduardo e Flavio.

Em algum momento dos últimos meses, os deputados Delegado Waldir, Luciano Bivar e Joice Hasselmann partilharam do núcleo duro do 3º andar do Palácio do Planalto. Hoje são considerados traidores, assim como os ex-ministros Gustavo Bebianno e Santos Cruz. Dos amigos dos tempos de vacas magras, o único com quem o presidente não rompeu foi o ex-deputado Alberto Fraga. Ainda.

Desesperado pela atenção do presidente, os políticos, lobistas e empresários mudaram de hábito. Descobriram que o capitão acorda cedo e a partir das 5h começa a ler e disparar mensagens de WhatsApp. É a hora que muitos aproveitam para tentar marcar uma audiência ou emplacar um projeto. Mas o episódio dos brasileiros de Wuhan mostra que há apenas um jeito certeiro de obter atenção de Bolsonaro: as redes sociais.

Bolsonaro é um político com a cabeça aberta para as redes sociais. Ele não confia em pesquisas (mandou cancelar os contratos federais com institutos) e despreza a mídia. Em tom de blague, ministros dizem que a melhor forma de assegurar seus empregos é ter sua demissão decretada por algum jornalista. Daí, dizem, mesmo que decidido pela degola, Bolsonaro prefere esperar para não dar o braço a torcer. Com as redes sociais isso não acontece.

O presidente tem um método peculiar de medir a temperatura das redes. Inclui as centenas de mensagens via WhatsApps que recebe ao longo do dia, as reações ao vivo das suas transmissões via Facebook, a repercussão de seus tuítes e as avaliações dos assessores indicados pelo filho Carlos Bolsonaro. Essa combinação de informações faz Bolsonaro decidir avançar (como no episódio da dupla demissão do assessor da Casa Civil pelo uso do jatinho da FAB), recuar (quando reduziu o fogo da frigideira em Sergio Moro) e dobrar a aposta (nos ataques aos vazamentos de conversas da operação Lava Jato e nos ataques às ONGs nas queimadas da Amazônia).

É como se Bolsonaro usasse as redes sociais para medir o pulso do país (a Folha de S. Paulo tocou no assunto nesta reportagem).

É ótimo que o chefe da nação se preocupe com a opinião de seus eleitores, contribuintes e cidadãos. Palácios estão repletos de quem é pago para dizer “sim, senhor” e a bajulação tem o poder de inebriar e viciar. Embora sejam apenas uma amostra da sociedade, as redes sociais podem, sim, ser usadas como uma ferramenta para compreender tendências da opinião pública.

O problema é quando essa amostra está viciada. O presidente deve, com certeza, ouvir o que a sociedade tem a dizer sobre o Enem, a Amazônia e a volta da CPMF. Mas não pode ouvir apenas os seus, os que estão mais preocupados em eliminar os adversários do que com o sucesso de qualquer medida. No Brasil, a casa (e a atenção do presidente) deve ser para todos.

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