Decisão do STF encerra suspensão de 90 dias e ocorre enquanto senador amplia presença na corrida pelo Planalto; pesquisas recentes apontam vantagem numérica sobre Lula, mas resultado permanece em aberto
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta segunda-feira (12/10) a retomada das visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar humanitária. A decisão encerra uma suspensão de 90 dias, mas mantém restrições expressas a atividades político-eleitorais e à divulgação de declarações políticas do ex-presidente.
A medida ocorre em um momento decisivo da eleição presidencial brasileira. Flávio aparece numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em diversas pesquisas divulgadas após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Embora permita a retomada dos encontros familiares, Moraes deixou claro que a autorização não representa uma flexibilização das demais medidas cautelares impostas a Jair Bolsonaro. As visitas deverão respeitar os horários, as condições e os procedimentos de segurança anteriormente estabelecidos.
“Autorizo a retomada do regime de visitas de Flávio Nantes Bolsonaro, nos mesmos horários, condições e medidas de segurança anteriormente fixados, estando vedada a finalidade político-eleitoral e a divulgação de quaisquer manifestos ou declarações, inclusive por terceiros, independentemente do meio utilizado”, afirmou o ministro.
Na prática, Flávio poderá voltar a visitar o pai, mas não poderá utilizar os encontros como instrumento de campanha nem divulgar manifestações políticas de Jair Bolsonaro por meio de terceiros.
Suspensão começou após divulgação de carta de Bolsonaro
A suspensão das visitas foi determinada em 13 de julho, depois que Flávio divulgou nas redes sociais uma carta escrita pelo pai. A publicação foi considerada incompatível com as medidas cautelares que proíbem Jair Bolsonaro de utilizar redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros.
Na mensagem, o ex-presidente identificava o filho como seu porta-voz e convocava apoiadores à mobilização política. “O momento é de arregaçar as mangas, deixar de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar”, dizia um trecho da carta.
Após divulgar o documento, Flávio agradeceu publicamente ao pai pelo reconhecimento como porta-voz. Segundo o senador, a definição ajudaria a evitar declarações conflitantes e orientações divergentes durante a pré-campanha.
O episódio colocou as visitas familiares no centro de uma disputa jurídica que também tem implicações políticas. A decisão desta segunda-feira restabelece o contato presencial, mas mantém a proibição de transformar essas ocasiões em canais de comunicação eleitoral.
PGR não se opôs à retomada
A defesa de Jair Bolsonaro apresentou o pedido de retomada das visitas em 5 de outubro. A suspensão terminou no domingo (11), completando os 90 dias estabelecidos anteriormente.
Ao analisar o requerimento, Moraes observou que não surgiram fatos novos que justificassem a prorrogação da restrição. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também não se opôs ao retorno das visitas.
Em manifestação divulgada na semana anterior, a instituição afirmou não haver elementos supervenientes que demonstrassem descumprimento das condições fixadas ou necessidade de prolongar a medida.
A decisão deverá ser comunicada à Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal e ao diretor do Núcleo de Custódia da Polícia Militar do DF, responsáveis pela supervisão das condições de custódia do ex-presidente.
Prisão domiciliar e condenação de 27 anos
Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar humanitária desde março de 2026, no contexto da execução penal relacionada à trama golpista investigada pelos acontecimentos do fim de seu mandato, em 2022.
O ex-presidente foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão. O regime domiciliar veio acompanhado de medidas cautelares, incluindo restrições ao uso de redes sociais e à divulgação de manifestações por intermédio de terceiros.
A retomada das visitas, portanto, não altera a condenação nem elimina as demais restrições judiciais. O alcance da decisão é específico: restabelece os encontros com o filho, mantendo as condições anteriores e a proibição de finalidade político-eleitoral.
Flávio lidera em pesquisas e disputa se intensifica
A decisão judicial ocorre enquanto Flávio Bolsonaro busca consolidar sua posição na disputa pelo Palácio do Planalto. No primeiro turno, o senador obteve 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula, garantindo a passagem dos dois candidatos para a etapa final.
Os primeiros levantamentos do segundo turno mostram vantagem numérica de Flávio em diferentes institutos, embora a distância varie conforme a metodologia e a margem de erro de cada pesquisa.
Na pesquisa Ipespe/Abrapel divulgada em 10 de outubro, Flávio aparece com 52,7% dos votos válidos, contra 47,3% de Lula — diferença de 5,4 pontos percentuais. O levantamento ouviu 1.500 eleitores por telefone entre 6 e 8 de outubro.
No cenário de votos válidos, que exclui brancos, nulos e indecisos, os resultados divulgados também apontam:
AtlasIntel: Flávio com 52,8% e Lula com 47,2%, diferença de 5,6 pontos percentuais.
Datafolha: Flávio com 52% e Lula com 48%, diferença de quatro pontos percentuais.
PoderData/Aya: Flávio com 53% e Lula com 47%, diferença de seis pontos percentuais.
Os números não devem ser interpretados como uma única medição. Cada instituto utiliza procedimentos de coleta, amostras e margens de erro próprios. No caso do Datafolha, a diferença entre os candidatos permanece dentro do intervalo associado à margem de erro de dois pontos percentuais.
O Instituto Vox Brasil apresentou um cenário diferente, com Lula numericamente à frente, reforçando que a disputa ainda não está definida.
Mercado de previsões aponta vantagem maior
Além dos levantamentos tradicionais, plataformas de previsão e simuladores eleitorais passaram a refletir o aumento das expectativas de vitória de Flávio Bolsonaro.
Em números revelados pelo Polymarket às 21h23 de 11 de outubro, a probabilidade negociada de vitória de Flávio aparecia em 86,1%, enquanto Lula registrava 12,5%.
Já o Global Election Simulator projetou 62.511.733 de votos para Flávio, equivalentes a 53%, e 55.414.510 para Lula, ou 47%, considerando a margem de erro informada pela própria simulação que está entre 1% para mais ou para menos.
Esses indicadores, entretanto, exigem interpretação cuidadosa. As probabilidades de uma plataforma de mercado refletem expectativas dos participantes e condições de negociação; as projeções de um simulador dependem de seus próprios modelos e premissas. Nenhum dos dois representa uma apuração oficial ou garante o resultado eleitoral. Porém sempre que o Polymarket apontou o vencedor, representando o futuro da era da tecnocracia, não errou nenhum levantamento.
As pesquisas de intenção de voto também são fotografias de um momento específico da campanha, não previsões definitivas.
Uma disputa entre limites judiciais e mobilização política
A autorização de Moraes restabelece uma rotina familiar que havia sido interrompida por uma decisão judicial, mas preserva os limites impostos à comunicação política de Jair Bolsonaro. Para Flávio, a retomada permite o contato presencial com o pai em plena reta final da eleição, sem autorização para utilizar esses encontros como plataforma eleitoral.
O episódio evidencia como as decisões judiciais e a campanha presidencial passaram a se cruzar em uma eleição marcada pela polarização política e pela disputa em torno do legado do ex-presidente.
Com o segundo turno previsto para 25 de outubro de 2026, Flávio entra na fase final da campanha respaldado por resultados favoráveis em boa parte dos levantamentos recentes. Lula, por sua vez, continua competitivo e conta com a possibilidade de mudanças no comportamento do eleitorado durante as próximas duas semanas.
A vantagem numérica do candidato do PL é um dado relevante, mas a decisão final caberá aos eleitores. Até lá, a retomada das visitas de Flávio a Jair Bolsonaro deverá ocorrer sob as condições expressamente determinadas pelo STF.

