Moradores ficam furiosos com a liberação de mais de 500 milhões de mosquitos geneticamente modificados na Flórida


Moradores do vilarejo de Islamorada, na Flórida, nos Estados Unidos, vão participar de um experimento genético controverso conduzido pela empresa britânica de biotecnologia Oxitec. O estudo consiste em liberar meio bilhão de mosquitos geneticamente modificados para ¨controlar¨ a população de Aedes Aegypti na região, que pode ¨ajudar¨ a combater doenças como dengue e a Zika.


Virginia Donaldson disse ao portal Futurism que dois homens uniformizados solicitaram que ela participasse de um “programa de controle de pragas”. Com pressa, Donaldson foi uma das que acabou assinando a prancheta e observou enquanto um dispositivo de captura de mosquitos foi colocado em seu quintal.

Alguns moradores se posicionaram a favor da ideia, enquanto outros repudiaram o experimento, ameaçando até destruir os equipamentos da companhia. Os defensores dizem que esta é uma nova maneira de livrar a área de mosquitos transmissores de doenças. Já os oponentes, relatam que a Oxitec pretende usar a comunidade como cobaia para sua pesquisa.


Polêmica aprovação do projeto

O plano da empresa foi aprovado no ano passado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA – United States Environmental Protection Agency) por meio de uma autorização especial.


Do ponto de vista científico, várias coisas se destacam na decisão da EPA de liberar o experimento. A primeira é: a agência nunca pediu para a Oxitec realizar testes em gaiola, experimentos que mostrariam como os mosquitos modificados se saem em um ambiente controlado. Algo que ajudaria a revelar problemas antes que eles tenham a oportunidade de causar danos reais.


A licença também não exige que ninguém meça se o experimento realmente levará a uma redução na transmissão de doenças ou se causará impactos no ecossistema. “Não há ciência revisada por terceiros, não há estudos de segurança, não há estudo de impacto ambiental”, disse Meagan Hull, outra residente da região.


Parte do processo regulatório também foi omisso aos olhos do público. Apenas duas páginas da documentação sobre o projeto foram disponibilizadas no site da EPA, o que gerou milhares de comentários negativos.


O experimento, que está programado para começar em breve, terá como alvo a espécie Aedes Aegypti (velho conhecido no Brasil). O teste, segundo a empresa, pode ajudar a impedir a propagação de doenças como a dengue e a Zika, além de representar uma forma pontual de matar pragas sem o uso de inseticidas químicos. O que significa menos danos aos insetos, como abelhas e borboletas, e a perda de biodiversidade.


No entanto, um experimento anterior conduzido pela mesma Oxitec no Brasil, no qual a empresa também liberou mosquitos que carregavam um gene modificado, cientistas não afiliados à empresa publicaram pesquisas afirmando que alguns dos mosquitos haviam acasalado, criando uma população híbrida capaz de sobreviver na selva. Por isso, ativistas ambientais, acadêmicos e residentes se uniram contra a pesquisa conduzida na Flórida.


Em contrapartida, se tudo funcionar como o esperado, experimentos como esse mostram que os cientistas serão eventualmente capazes de manipular geneticamente doenças infecciosas como a malária e a própria dengue. Entretanto, a conturbada aprovação do estudo da Oxitec também abrirá precedentes para liberações de outras espécies modificadas no meio ambiente. O que indica que a tecnologia acabou evoluindo mais rápido do que as regulamentações destinadas a mantê-la sob controle.


No fim, Donaldson decidiu que não queria mais participar do experimento e declarou que não ouviu falar da Oxitec desde que os técnicos levaram a armadilha de mosquitos de sua propriedade. Outros residentes planejam uma solução mais radical: colocar alvejante para matar os ovos dos mosquitos modificados.


Os ovos serão entregues em kits que estão sendo distribuídos aos moradores pela Oxitec. A empresa declarou que cerca de mil mosquitos machos nascerão de cada kit ao longo de duas semanas.

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