Questionado sobre por que temas que envolvem diretamente as fronteiras brasileiras não estão relacionados no capítulo de conjunturas regionais, um dos diplomatas envolvidos nas negociações dos Brics afirmou que a declaração costuma tratar apenas de temas de "envergadura internacional".
De
acordo com informações levantadas pela Reuters com fontes brasileiras e
sul-africanas, havia uma expectativa inicial de levar o assunto
Venezuela à plenária dos presidentes, mas nem isso chegou a ser feito,
assim como o Brasil desistiu até mesmo de levar à mesa de negociações
uma menção ao país por concluir que não haveria chance de um acordo por
"divergências ideológicas".
O
Brasil chegou a fazer uma sondagem inicial sobre os termos que poderiam
ser usados para incluir uma condenação à crise venezuelana, mas
detectou-se que não haveria possibilidade de acordo. Aliados do governo
de Nicolás Maduro, China e Índia têm posições opostas ao governo
brasileiro da situação venezuelana.
"Venezuela
não está na agenda, não é um assunto para esta cúpula. Até onde lembro
isso não foi discutido pelos líderes na sessão fechada e nem na
plenária", disse Wang Xiaolong, enviado especial ao Brics do Ministério
das Relações Exteriores da China.
Com
uma crise que já chega a 4 milhões de refugiados, a Venezuela tem sido
tema de discussões em outros organismos internacionais como as Nações
Unidas e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Nos nove parágrafos
estão citadas crises como a questão do Iêmen, Israel e Palestina, Líbia
e Coréia do Norte.
O
esforço de negociação brasileiro conseguiu incluir na declaração uma
questão cara à bancada evangélica, tradicional apoiadora do presidente
Jair Bolsonaro, a de uma defesa das minorias étnico-religiosas na Síria,
fundamentalmente as de origem cristã. O assunto foi tratado em diversas
reuniões entre o chanceler Ernesto Araújo e a bancada evangélica. "É um
tema muito caro ao governo", confirmou a fonte.
A
declaração deixou de fora dessa vez a defesa do trabalho da Agência de
Assistência aos Refugiados Palestinos no Oriente Médio (UNRWA), incluída
em 2018 depois que os Estados Unidos cortaram praticamente todo o seu
financiamento ao organismo.
Dessa
vez, ao adotar um discurso alinhado ao americano e ao israelense, que
diz cobrar transparência no uso de recursos, o Brasil inviabilizou a
defesa feita pelos Brics do trabalho da agência, do qual depende uma
parte considerável dos palestinos.
"Não
houve um consenso. O Brasil apoia o trabalho da agência, continua
apoiando, mas defende que seu trabalho avance com absoluta
transparência. É accountability", disse o diplomata, que não quis ser
identificado.
Isolado em sua posição, o governo brasileiro terminou por impedir que a menção à UNRWA entrasse no texto final.
Apesar
de pontos comuns na defesa do multilateralismo e do incremento na
cooperação entre os cinco países que compõe o bloco, a primeira cúpula
do grupo tocada pelo governo Jair Bolsonaro revelou divergências
políticas com seus parceiros de blocos, centradas basicamente em
questões ideológicas.
O
alinhamento automático do atual governo brasileiro com os Estados
Unidos opõe o país a China e Rússia, tradicional rivais políticos e
econômicos dos americanos.
